Dieta Bem Sucedida [3/5]: Restrição Calórica, Proteína Alta, Exercício e Recomposição


Vimos anteriormente que dietas hiperproteicas e exercício, especialmente treino com pesos, tem um efeito aditivo na manutenção de massa magra ou até ganho de massa magra. Exercício adicional tende a aumentar a perda de peso, mas tem maiores efeitos na composição corporal através da preservação da massa magra enquanto aumenta a perda de gordura.


Um mínimo de 150 minutos por semana de actividade física de intensidade moderada para adultos obesos e com excesso de peso foi recomendado para melhorar a saúde, e 200-300min por semana foi recomendado para perda de peso a longo-prazo (1). Uma actualização a essas evidências indica que mais actividade física pode ser necessária para prevenir o reganho de peso após perda de peso.

Actividade física de intensidade moderada entre 150-250min melhora a perda de peso em conjunto com uma dieta de restrição moderada mas não uma severa (2). A manutenção da perda de peso é melhorada com actividade física acima de 250min por semana, e apesar de o treino com peso não aumentar a perda de peso pode aumentar a massa magra e aumentar a perda de massa gorda (2).

Existe uma dose-resposta entre a quantidade de exercício e perda de peso a longo-prazo (3). Numa experiência controlada, 115 mulheres com excesso de peso completaram um programa comportamental de controlo de peso durante 18 meses. As mulheres foram divididas em 3 grupos: sessão longa de exercício (LB; múltiplas sessões curtas (SB); ou múltiplas sessões curtas com equipamento caseiro (SBEQ) com uma passadeira. Após 18 meses a perda de peso (DP) foi significativamente maior em indivíduos a exercitar mais que 200min/semana (-13.1kg) comparado com 150-200 min/semana (-8.5kg) ou menos que 150min/semana (-3.5kg) (3).

Outra experiência com 52 homens obesos aleatoriamente distribuídos em 4 grupos (perda de peso induzida por dieta, perda de peso induzida por exercício, e exercício sem perda de peso, e controlo) durante 3 meses observou maiores reduções (1.3kg) no grupo com perda de peso induzida por exercício que no grupo apenas com dieta (4). Perda de peso induzida por actividade física diária sem restrição calórica reduziu substancialmente a obesidade (especialmente obesidade abdominal) e resistência a insulina. Exercício sem perda de peso reduz a gordura abdominal e previne ganho de peso.

Mais experiências sustentam a importância do exercício numa dieta na preservação da massa magra. Treino com pesos mas não aeróbico preservou mais massa magra num grupo de pessoas com uma dieta com conteúdo energético a 70% do ritmo metabólico em repouso (RMR) e ingestão proteica ≥ 1.5 g/kg de peso corporal ideal e 1 g/kg de peso corporal real (5).

Noutra experiência, 40 mulheres obesas foram submetidas a um défice de 1000kcal, numa deita com 50% de hidratos de carbono, 27% de proteína e 23% de gorduras. Suplementos de proteína foram dados para assegurar uma ingestão de ≥ 1 g/kg de proteína. Exercício mais a dieta preservou mais massa magra (0.43kg) que dieta sem exercício (-0.91kg) após 8 semanas (6). Além disso, as áreas do braço superior também aumentaram mais para o grupo de deita e exercício (11.2 cm2) comparado com dieta sem exercício (2.1 cm2). Este é outro estudo entre muitos a indicar que adicionar treino com pesos a uma restrição calórica resulta em manutenção de massa magra comparado apenas com dieta.

Um estudo mais recente em mulheres obesas em pre-menopausa comparou os efeitos de 3 dietas durante 16 meses: proteína alta, lacticínios altos (HPHD) com 1.3g/kg de proteína total; proteína adequada, lacticínios médio 0.84g/kg de proteína total (APMD); e proteína adequada, lacticínios baixos (APLD) com 0.72g/kg de proteína total, diferindo na quantidade total de proteína e lacticínios em 28 e 15%, 18 e 7.5%, ou 16 e 2% de energia, respectivamente. A quantidade de hidratos de carbono também variou, com 41% em HDHP, 58% em APMD e 56% em APLD.
 

Todas a mulheres tiveram um défice de 500kcal por dia e participaram em treino com peso 2 vezes por semana (alterando corpo superior e inferior) com 3 séries de 10 repetições cada, e treino aeróbico 7 vezes por semana. Em cada sessão de treino gastaram 250kcal.

Apesar de uma perda de peso similar entre as dietas, houve maior perda de gordura e mais preservação de massa magra no grupo de proteína e lacticínios altos (1.3g/kg de proteína total com 15% de lacticínios). De facto, esse grupo foi capaz de ganhar massa magra (0.7kg) durante a perda de peso (apesar da menor ingestão de hidratos de carbono), significando que a perda de peso foi exclusivamente na forma de gordura (7). A massa magra praticamente não se alterou no grupo com proteína adequada e lacticínios moderados (-0.2kg), e desceu no grupo com proteína adequada e lacticínios baixos (-0.7kg).

Noutro estudo, Paoli e colegas (8) submeteram ginastas de elite a 30 dias de dieta cetogénica, continuando com o seu treino habitual. A dieta consistiu primeiramente de bife e vitela, aves, peixe, vegetais crus e cozinhados sem restrição, carnes frias (bife seco, carpaccio e presunto curado), ovos e queijo. A distribuição dos macronutrientes foi de 54.8% gordura, 40.7% proteína (200g) e 4.5% de hidratos de carbono (22g). Durante a dieta consumiram 1266KJ (302kcal) menos que durante a dieta ocidental (design cruzado) com 47% de hidratos (266g), 15% de proteína (83g) e 38% de gordura.

Após a dieta houve uma perda de peso corporal de -1.9kg em forma de gordura, com um aumento não significativo de massa muscular, e sem reduções na performance (8).

Finalmente vem um estudo mais recente de Stu Phillips e colegas, também a experimentarem com diferentes quantidades de proteína e exercício durante um défice de 40% durante 4 semanas (9). Participantes tinham sobrepeso mas não eram obesos e foram atribuídos aleatoriamente dois grupos  (n=20 por grupo), a consumirem proteína mais baixa (1.2g/kg) no grupo de controlo (CON) ou proteína mais alta (2.4g/kg) (PRO). Todos os participantes eram “recreativos e não participavam em qualquer programa aeróbico ou anaeróbico estruturado, todos os sujeitos executaram treino com pesos combinado com treino intervalado de alta intensidade 6 dias por semana.  

Todas as refeições e bebidas foram fornecidas durante o período de intervenção. O grupo de controlo consumiu 15% de proteína, 50% de hidratos de carbono, e 35% de gordura vs. 35% de proteína, 50% de hidratos de carbono e 15% de gordura no grupo PRO. Ambos os grupos consumiram a mesma quantidade de hidratos de carbono (a quantidade de hidratos de carbono numa dieta hipocalórica é importante e será foco do próximo artigo).


Após 4 semanas a massa magra aumentou mais no grupo PRO (+1.2kg) comparado com o grupo de controlo (0.1kg). O grupo PRO também teve mais perda de gordura que o de controlo (-4.8kg vs. -3.5 kg). De notar que o grupo de controlo com 1.2g/kg foi capaz de manter a massa magra.

Os resultados mostram que, durante um défice energético, o consumo de uma dieta hiperproteica com 2.4g/kg de proteína foi mais eficaz que 1.2g/kg em promover aumentos de massa magra e perda de gordura quando combinado com treino com pesos com alto volume e exercício anaeróbico (9).

Tais resultados estão em contraste com um estudo anterior por Pasiakos e colegas (10), discutido no artigo anterior Dieta Bem Sucedida [2/5]: Ingestão proteica. Brevemente, nesse estudo o défice foi de 30% com ingestão de proteína no valor da RDA (0.8g/kg), 2x RDA (1.6g/kg) e 3x RDA (2.4g/kg). Os resultados indicaram que o grupo com  2x RDA (1.6g/kg) perdeu mais gordura e menos massa magra comparado com  3x RDA, por outras palavras uma ingestão proteica 3 vezes maior que a RDA falhou ao resultar em maior protecção de massa magra ou vantagem metabólica proteica.

Uma diferença entre os 2 estudos foi o tipo de exercício. Pasiakos e colegas incluíram exercício diário de baixa a moderada intensidade (40-60% VO2 max) numa passadeira e bicicleta, e 3 vezes por semana de treino de baixa intensidade com peso (3 séries de 10 reps cada). 

Phillips e colegas usaram treino com peso intenso e com alto volume e HIT/SIT (alta e baixa intensidade): circuito de corpo inteiro de treino com pesos (2x por semana sem descanso entre exercícios) com 3 séries de 10 reps cada a 80% RM, com falha na última série de cada exercício; HIT/SIT duas vezes por semana; um teste temporizado semanal de 250kcal num ergonometro em que foram instruídos a completar  o mais rápido possível enquanto auto-ajustavam a resistência do ergonometro; e circuito pliométrico com peso corporal com 30s de intervalo entre cada exercício.

Esta diferença no tipo de exercício e intensidade pode explicar as diferenças de ambos os estudos. Contudo há outra diferença entre os participantes nos estudos. Pasiakos e colegas usaram pessoal militar activo enquanto que Phillips e colegas usaram sujeitos “recreacionais”.

Observando os dados com mais atenção podemos ver que os participantes já faziam supino com 99-107kg ao início e aumentaram a força para 126-146kg (+27-39kg) em 4 semanas. Também na prensa de perdas já levantavam 162-171kg e aumentaram para 318-340kg (+156-169kg) após 4 semanas. Parece-vos apenas recreativos? Estavam mais provavelmente destreinados e ganharam rapidamente a força e massa magra de volta rapidamente, na verdade até o próprio Stu Phillips disse que estavam destreinados.


ainda outra possível razão para a disparidade de resultados entre estes 2 estudos, e também entre Pasiakos e colegas e outros estudos similares! Mas vou reservar isso para a próxima!

Em conclusão, existe uma sinergia entre treino com pesos e dietas hiperproteicas durante perda de peso, resultando num rácio maior de gordura para massa magra perdida quando as duas estratégias são combinadas como mais estudos mostram (11,12,13).

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Referências:

1. Jakicic JM, Clark K, Coleman E, et al. Appropriate intervention strategies for weight loss and prevention of weight regain for adults. Med Sci Sports Exerc. 2001;33(12):2145–56.
2. Donnelly JE, Blair SN, Jakicic JM, Manore MM, Rankin JW. American College of Sports Medicine (2009). American College of Sports Medicine position stand. Appropriate intervention strategies for weight loss and prevention of weight regain for adults. Med Sci Sports Exerc. 2009 Feb;41(2):459-71.
3. Jakicic, J. M., Winters, C., Lang, W. & Wing, R. R. (1999). Effects of intermittent exercise and use of home exercise equipment on adherence, weight loss, and fitness in overweight women: a randomized trial. J. Am. Med. Assoc. 282:1554-1560.
4. Ross, R., Dagnone, D., Jones, P. J., Smith, H., Paddags, A., Hudson, R. & Janssen, I. (2000). Reduction in obesity and related comorbid conditions after diet-induced weight loss or exercise-induced weight loss in men. A randomized, controlled trial. Ann. Intern. Med. 133:92-103.
5. Geliebter, A., Mahar, M. M., Gerace, L., Gutin, B., Heymsfield, S. B. & Hashim, S. A. (1997) Effects of strength or aerobic training on body composition, resting metabolic rate, and peak oxygen consumption in obese dieting subjects. Am. J. Clin. Nutr. 66:557-563.
6. Ballor, D. L., Katch, V. L., Becque, M. D. & Marks, C. R. (1988) Resistance weight training during caloric resistance enhances lean body weight maintenance. Am. J. Clin. Nutr. 47:19-25.
7. Josse AR, Atkinson SA, Tarnopolsky MA, et al. Increased consumption of dairy foods and protein during diet- and exercise induced weight loss promotes fat mass loss and lean mass gain in overweight and obese premenopausal women. J Nutr. 2011;141:1626–34.
8. Paoli A, Grimaldi K, D’Agostino D, Cenci L, Moro T, Bianco A, Palma A (2012) Ketogenic diet does not affect strength performance in elite artistic gymnasts. J Int Soc Sports Nutr 9(1):34.
9. Thomas M Longland, Sara Y Oikawa, Cameron J Mitchell, Michaela C Devries, and Stuart M Phillips. Higher compared with lower dietary protein during an energy deficit combined with intense exercise promotes greater lean mass gain and fat mass loss: a randomized trial. Am J Clin Nutr 2016;103:738–46.
10. Pasiakos SM, Cao JJ, Margolis LM, et al. Effects of high-protein diets on fat-free mass and muscle protein synthesis following weight loss: a randomized controlled trial. FASEB J. 2013;27:3837–47.
11. Layman DK, Evans E, Baum JI, Seyler J, Erickson DJ, Boileau RA (2005) Dietary protein and exercise have additive effects on body composition during weight loss in adult women. J Nutr 135(8):1903–1910
12. Mettler S, Mitchell N, Tipton KD (2010). Increased protein intake reduces lean body mass loss during weight loss in athletes. Med Sci Sports Exerc 42(2):326–337. doi:10.1249/MSS.0b013e 3181b2ef8e
13. Weinheimer EM, Sands LP, Campbell WW (2010). A systematic review of the separate and combined effects of energy restriction and exercise on fat-free mass in middle-aged and older adults: implications for sarcopenic obesity. Nutr Rev 68(7):375–388.